“A arte como mediador para a Expressão de Emoções”

Sendo a vida feita de emoções… como as podemos expressar?

Tudo começa no nosso sistema límbico (áreas como o hipocampo e a amígdala), que é o responsável pelo controlo das emoções. Caraterizam-se por reações complexas e que podem ser expressas em diferentes manifestações, quer sejam fisiológicas, comportamentais, cognitivas, afetivas ou sentimentais.

Jean Watson (2002) destacava que as emoções são um elemento-chave para a ligação do enfermeiro com o Ser (corpo e alma), de quem cuida. Damásio (2012), defendia que o desenvolvimento emocional é parte integrante do processo de tomada de decisão e que funciona como um vetor das ações e das ideias. Pam Smith (2011) refere que os enfermeiros têm que gerir as emoções como parte do seu trabalho, que decorrem das situações problemáticas vividas pelas pessoas.

E a expressão das emoções é muito relevante para a nossa saúde?

Deviam ser alvo da nossa atenção, todas as emoções que interferem com a nossa vida e o nosso desempenho emocional. Todas, mesmo as mais agradáveis, nem sempre muito valorizadas.

Podemos estudar as emoções clássicas como a ansiedade na perspetiva e na lógica da Psiquiatria ou da Enfermagem com Hipócrates ou Aristóteles, pelo ponto de vista filosófico com Platão ou Espinoza, numa perspetiva de chegar à salvação com Kierkegaard ou mesmo como fruto da sociedade e do tempo em que vivemos como defende Camus. Falar do ciúme, em que Hera matou as amantes de Zeus por ciúme e por medo de perder o poder ou na visão de Santo Agostinho, que defendia que quem não é ciumento não ama… ou da inveja, numa dimensão mitológica, da relação dos seres humanos para com os deuses gregos.

As emoções com um cunho marcadamente negativo sempre foram alvo de atenção pelo prejuízo e dano que causam à pessoa.

Mas, porque que não falar da esperança, uma das três virtudes teológicas (fé, esperança e caridade) ou do que restou da caixa Pandora (mitologia grega), quando foram libertados todos os males no mundo.

Todas as nossas capacidades, deviam concentrar-se na preservação e na promoção desta energia vital e na emoção mais procurada pelo ser humano, que é a alegria e o consequente bem-estar. Numa perspetiva de promoção de saúde mental e uma visão salutogénica, pode ser sinónimo de felicidade, de satisfação, de otimismo e de prazer, que pode facilitar a resolução de dificuldades e sentimentos negativos, suavizar os efeitos do stress e aumentar a criatividade.

E se a expressão de emoções, não é fácil, o que fazer?

Usar facilitadores e mediadores de expressão poderá ser o caminho.

A arte ou através da arte, pode ser um caminho de InspirAção.

A arte, como técnica ou habilidade humana, possibilita a expressão de uma variedade de linguagens e como processo criativo, tem o intuito de expressão de emoções e de ideias. A investigação tem nos mostrado essa importância e essa valorização.

Já Cassiodoro (séc VI) destacava três funções para as artes: ensinar, comover e agradar ou dar prazer.

Sendo a arte e a estética, formas de representação da realidade, porque não usá-las?

E começar por onde. Seguir um pouco o caminho defendido por Ricciotto Canudo no seu Manifesto das Artes (1923), onde foram sendo acrescentadas novas artes.

Deixar apenas alguns exemplos:

A música e o seu enorme potencial de nos tocar e comover, como refere Aldous Huxley, o que mais se aproxima de exprimir o inexprimível?

A pintura, o desenho, a caricatura, a fotografia, a arte urbana e o graffiti, o cinema, o vídeo, a televisão, os recursos multimédia… imagens estáticas ou em movimento, em grande ou pequena escala, com grandes mestres ou apenas amadores, com grandes ou pequenos recursos… por vezes uma imagem, “vale mais que mil palavras” e desperta um conjunto alargado de emoções e sensações.

A Literatura, desde o texto literário em Prosa à Poesia ou a outras formas de escrita criativa e à expressão da palavra, como fonte de prazer, de reflexão e de emoção.

E que dizer do Teatro e da Dança e da sua capacidade de nos sensibilizar.

Outra das formas de abordagem, poderá passar pelo humor, como recurso e como forma de comunicação. Comunicar é uma condição fundamental para o ser humano e para as suas relações sociais.

Como refere Fernando Pessoa, a sensibilidade é pessoal e intransmissível.

Neste espaço, dedicado ao estudo e prevenção do suicídio, nada melhor que um apelo à prevenção e à melhoria das nossas virtudes e das diferentes forças de caráter, sejam elas 24 ou um pouco menos e trabalhar no fortalecimento das nossas competências pessoais, por exemplo, com recurso a este(s) mediador(es) de expressão.

O recurso à arte ou através da arte, poderá funcionar como um catalisador, despertar o interesse das pessoas e acima de tudo, constituir-se como um espaço de partilha de emoções.

José Carlos Carvalho

Fonte: José Carlos Carvalho

Referências

Carvalho, José Carlos, Tavares, Cláudia Mara. “Nursing students’ depiction of mental disorder.” The Journal of Mental Health Training, Education and Practice 12.5 (2017): 323-330.

Carvalho, José Carlos, et al. “El humor como recurso frente al estigma en salud mental.” Revista Rol de Enfermería 42.4 (2019): 286-292.

Damásio, António. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Editora Companhia das Letras, 2012.

McKeown, Eamonn, et al. “Art engagement and mental health: Experiences of service users of a community-based arts programme at Tate Modern, London.” Public health 130 (2016): 29-35.

Noy, Pinchas, and Dorit Noy‐Sharav. “Art and emotions.” International journal of applied psychoanalytic studies 10.2 (2013): 100-107.

Smith, Pam. The emotional labour of nursing revisited: Can nurses still care?. Macmillan International Higher Education, 2011.

Van Lith, Theresa. “Art therapy in mental health: A systematic review of approaches and practices.” The Arts in Psychotherapy 47 (2016): 9-22.

Watson, Jean. “Intentionality and caring-healing consciousness: A practice of transpersonal nursing.” Holistic Nursing Practice 16.4 (2002): 12-19.

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