Luto e a pandemia: um caminho para recomeços

“Longe o suficiente para balançar meu equilíbrio por alguns dias. Perto o suficiente para mudar minha vida para sempre”(1).

Um período cheio de mudanças e dúvidas… a atual pandemia do COVID-19 tem nos colocado diante de diversos desafios, ameaças a saúde (física e mental) e alterações em atividades do dia a dia, em tradições, rituais e hábitos. Todas essas mudanças levam a rupturas em processos do nosso cotidiano, com consequências complexas, sendo que algumas são imprevisíveis e de difícil compreensão(2).

Os impactos da pandemia são variados e ligados a uma importante carga emocional, de sofrimento e dor, principalmente para aquelas pessoas que tiveram perdas neste período, seja de um familiar, amigo, colega ou conhecido, estando ou não ligadas a COVID-19(3,4). O número elevado de mortes de brasileiros durante a pandemia reforça a gravidade da situação no país(5).

Uma morte repentina e inesperada gera impactos significativos na vida de entes queridos e pessoas próximas a quem morreu, e em diversos casos, os desdobramentos dessa perda se manifestam por longos períodos, passando de dias, para meses e até mesmo anos(2,4). Além disso, a morte de uma pessoa se relaciona diretamente com realização de rituais tradicionais presentes em nossa cultura, como no processo de velar, se despedir do ente querido e vivenciar o processo de luto ligado a esta perda (3,4). Experenciar todo este processo é algo importante e que auxilia na concretização e reorganização interna diante da perda(3).

Mas ao se falar de luto, o que se alterou no atual contexto em que estamos vivenciando? A pandemia elevou o número de mortes, não só no Brasil, mas também em todo o mundo. Nos últimos meses, centenas de brasileiros perderam suas vidas na luta contra a COVID-19. Dessa forma, milhares de pessoas enfrentaram e estão enfrentando processos de luto dolorosos e inesperados, em um período em que estamos afastados de pessoas próximas como forma de proteção e cuidado(2,3). Além disso, a pandemia impõe uma experiência de luto coletivo relacionado às mortes ocorridas em todo o mundo, bem como a sensação de perda e insegurança ligadas a tudo o que foi, de alguma forma, interrompido com o advento da COVID-19.

O distanciamento também afetou a forma de se vivenciar e elaborar os processos de luto, uma vez que a união, presente em momentos de despedida, não tem sido viável(4). Dentre as principais mudanças podemos observar que os velórios e sepultamentos não puderam ocorrer da mesma forma, afim de evitar aglomerações e risco de disseminação da doença, algumas dessas cerimônias foram proibidas em casos de mortes pela COVID-19 e o desejo de dizer adeus a pessoa querida se opôs a necessidade de evitar a propagação da doença. A falta de rituais de despedida pode propiciar uma experiência de luto mais sofrida, solitária e emocionalmente desorganizada.

A vivência do luto em nossa cultura está pautada na necessidade da despedida e do adeus, de se manter próximo aqueles que amamos em um momento de dúvidas, questionamentos e incertezas(3). A forma como lidamos com uma perda se difere de pessoa para pessoa, mas compreende-se que os impactos podem ser extensos(2). A vivência de um processo de luto se relaciona com diversas particularidades do indivíduo, e em períodos críticos como na pandemia, este processo fica ainda mais complexo e diverso, com sentimentos variados, como os de tristeza, culpa, raiva, vergonha, medo, solidão, frustração, improdutividade, revolta, dificuldade em manter um propósito de vida, entre outros(2–4).

Ajudar uma pessoa enlutada nesse período pode parecer uma tarefa difícil, mas cada um de nós pode ter um papel fundamental no suporte para o enfrentamento deste luto. Quem vivencia o luto com apoio apresenta melhor enfrentamento no processo(2,3). Por essa razão, destacamos algumas ações que podem te auxiliar e serem realizadas junto a alguém que vivencia o luto neste período da pandemia(1–4).

A pandemia tem alterado diversas vivências, mas o compromisso social e os cuidados com aqueles que amamos continuará sendo de grande importância. Se necessário, busque ajuda profissional ou entre em contato com grupos que realizam apoio emocional de forma gratuita, como o Centro de Valorização da Vida – CVV (188).

O suporte e apoio são fundamentais para que o luto não se prolongue ou complique, de forma que se torne nocivo a pessoa que o vivência. O enfrentamento de uma perda neste período da pandemia é ainda mais desafiador e complexo, mas não é o fim da linha. Sempre existirão formas de se lutar, mesmo naqueles momentos mais difíceis. Cada dia é um novo recomeço.

Fonte: Anna Cunha – Instagram: @anna_cunha

Referências

1. Orford N. Grief after Suicide. JAMA – J Am Med Assoc. 2020;323(17):1720–1.

2. Mayland CR, Harding AJE. Supporting Adults Bereaved Through COVID-19: A Rapid Review of the Impact of Previous Pandemics on Grief and Bereavement. J Pain Symptom Manage. 2020;60(2):e33–e39.

3. Cardoso ÉA de O, Silva BC de A da, Santos JH Dos, Lotério LDS, Accoroni AG, Santos MA Dos. The effect of suppressing funeral rituals during the COVID-19 pandemic on bereaved families. Rev Lat Am Enfermagem [Internet]. 2020;28:e3361. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32901773

4. Crepaldi MA, Schmidt B, Noal D da S, Bolze SDA, Gabarra LM. Terminalidade, morte e luto na pandemia de COVID-19: demandas psicológicas emergentes e implicações práticas. Estud Psicol. 2020;37.

5. Brasil MS. Painel Coronavírus [Internet]. 2020 [cited 2020 Sep 24]. Available from: https://covid.saude.gov.br/

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