Vamos conversar sobre Adolescência e Depressão?

A adolescência corresponde ao período entre a infância e a vida adulta, porém a idade exata em que essa fase se inicia difere, para o Estatuto da Criança e do Adolescente é entre os 12 e 18 anos(1) e para a Organização Mundial da Saúde dos 10 aos 19 anos completos(2). Essa classificação etária é importante apenas para desenvolvimento de políticas públicas para essa população (3).

Falar de adolescência vai além de estipular uma faixa-etária, o adolescente é um sujeito que está experienciando o mundo nessa ambivalência entre não ser mais criança e estar se construindo como um adulto. Ele transita entre esses polos e vivencia experiências que vão significando o seu viver, construindo autonomia e ferramentas para lidar com as dificuldades que pode encontrar na sua trajetória de vida (3,4).

Trazemos dois trechos de uma música escrita por Renato Russo (5) para ilustrar essa ambivalência do adolescente: “Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo. Todos os dias, antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia. Sempre em frente. Não temos tempo a perder”. “Então me abraça forte, me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Temos nosso próprio tempo”.

Podemos pensar que no primeiro trecho a letra mostra a intensidade da vida do adolescente, já no segundo, demonstra sua necessidade de afeto e apoio para lidar com questões que podem ser, para ele, muito desafiadoras e que está vivenciando, muitas vezes, sem possuir as ferramentas cognitivas e emocionais para lidar com tais vivências. A frase “temos nosso próprio tempo” indica que esta trajetória é um processo individual, com altos e baixos. E nesse processo, o adolescente vai se constituindo como ser humano (3).

O processo de significação da vida, de si e do mundo acontece a partir das interações sociais que ocorrem desde o nascimento, mas é na adolescência que o grupo de amigos, de colegas, das redes sociais se torna tão forte quanto o grupo familiar e assim, esses “novos grupos” serão parte importante desse processo. Nas interações compartilhamos conhecimentos e afetos; a linguagem, que é a base da comunicação, possibilita que ocorram as interações sociais e, dessa forma, cada adolescente vai interiorizar significações carregadas de conhecimentos, sensações e afetos que estão envolvidas nessas interações. Com isso, o adolescente vai se construindo nessa fase até chegar à vida adulta (4).

Nesse percurso de autoconhecimento, podem surgir situações que geram muito sofrimento psíquico e o adolescente pode desenvolver depressão. Às vezes, o adolescente não consegue identificar quais foram as situações que o levaram a estes sentimentos.

Como identificar o adolescente em sofrimento e quais são os fatores podem levar a depressão na adolescência?

O primeiro passo é observar se há mudança no comportamento do adolescente como, por exemplo, antes era falante e agora está mais calado; antes gostava de estar com os amigos, agora fica isolado. A literatura aponta alguns fatores que podem estar associados à depressão na adolescência, sendo eles: relação conflituosa com familiares e no meio social; perda de pessoas significativas; não se sentir pertencente a algum grupo; falta de independência; ausência de suporte familiar; dificuldade em se comunicar; baixo rendimento escolar; insegurança com o próprio corpo; sentimento de desesperança; vivência de eventos negativos(3).

O que devo fazer quando conheço algum adolescente que está passando por essas dificuldades?

É muito importante acolher e dialogar com esse adolescente, sem minimizar suas dores e ouvi-lo atentamente, quando o mesmo consegue expressar o que sente em palavras. Lembre-se que alguns adolescentes poderão apresentar dificuldades em expressar seus sentimentos. É importante ressaltar que nem todos os adolescentes vão desenvolver a depressão, mas podem apresentar um sofrimento psíquico situacional que através do acolhimento dos seus pares, apoio familiar e do seu meio social conseguem passar por tal situação.

Quando o adolescente não se sente confortável em expressar seus sentimentos para seu grupo social e familiar, o CVV (Centro de Atenção a Vida) é uma alternativa valiosa para esses casos, sendo seu número de telefone 188. Em situações que a rede social desse adolescente não consegue acessá-lo, e o mesmo está em sofrimento muito intenso, é importante buscar um profissional qualificado para o tratamento que o adolescente necessita naquele momento.

Perto de sua residência, existe uma unidade de saúde, procure a enfermeira ou enfermeiro e converse com ela(e) sobre uma forma de se ajudar ou ajudar seu amigo ou parente. Outros profissionais da rede de saúde mais perto de sua casa também podem ser procurados como o  psicólogo, o médico, o terapeuta ocupacional, o assistente social, a depender das características desta unidade de saúde. O importante é procurar ajuda! Na escola, você também pode procurar um professor, o coordenador ou diretor e pedir ajuda. Assim, você ou seu amigo ou seu parente terá o apoio necessário para lidar com situações que possam trazer sofrimento psíquico.

Artista: Rodrigo Rivera

Referências

1. Brasil. Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília: Diário Oficial da União; 1990.

2. World Health Organization. Young People’s Health – a Challenge for Society. Report of a WHO Study Group on Young People and Health for All. Technical Report Series 731. Geneva: WHO, 1986.

3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. – 2. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

4. Kohl MO, Rego TC. Vygotsky e as complexas relações entre cognição e afeto. In: Arantes VA, Aquino JG. Afetividade na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 2003.

5. Russo R. Tempo Perdido in Dois. EMI, 1986.

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